


...A estupidez humana deixa marcas que, às vezes [ como nesse caso] causam risos com o passar do tempo. Uma cena patética me causou imenso constrangimento certa vez, na sede da antiga Assembléia Legislativa. Era período de transição do parlamento estadual, ou seja, a Casa de Leis estava mudando de endereço, para onde funciona hoje sob o nome de Edifício Dante de Oliveira, no Centro Político Administrativo [CPA].
O ano era 2006 e mal os deputados haviam deixado a antiga sede, um grupo composto com quase todos os vereadores de Cuiabá, na então legislatura presidida pela ex-vereadora Chica Nunes invadiu literalmente aquele prédio, como forma de forçar o ex-governador Blairo Maggi a doar aquele local para que ali passasse a funcionar a Câmara municipal cuiabana, o que acabou acontecendo.
Até aí tudo bem. O que me entristeceu veio a seguir. Eu, repórter político do jornal Folha do Folha do Estado, abordei o então deputado estadual Humberto Bosaipo, para uma entrevista sobre aquela situação de, no mínimo, desconforto entre as instituções legislativas e o pirracento governo Maggi.
Minha indagação a Bosaipo seria única. Ele, havia sido nomeado para presidir a Comissão de Mudança da Assembléia, ou seja, tanto os móveis quanto os documentos que ali ainda estavam, eram de responsabilidade de Bosaipo. Daí a pergunta: O QUE O SENHOR PRETENDE FAZER, JÁ QUE OS VEREADORES DECIDIRAM,INCLUSIVE PERNOITAR AQUI NA SALA DA PRESIDÊNCIA ONDE HÁ IMPORTANTES DOCUMENTOS DO PARLAMENTO ESTADUALl? - Mas HB nem me deixou terminar a pergunta e , em alto em bom som, mandou: "COM VOCÊ EU NÃO FALO, PRA VOCÊ EU NÃO DOU ENTREVISTA...
É, fiquei atônito, mas com a voz meio embargada insisti: "MAS POR QUÊ, DEPUTADO, O QUE HOUVE?"
E com os dentes cerrados, os olhos esbugalhados e as veias do pescoço à beira de um estouro, HB descarregou:" VOCÊ F...DEU COMIGO NAQUELA MATÉRIA DO PEDRO HENRY, COM AQUELE MANCHETE".
Bosaipo se referia a uma reportagem que eu havia feito com ele uma semana antes, em que ele me disse textualmente [ e eu , claro gravei] que acreditava na cassação do mandato do deputado federal Pedro Henry [PP], citado no vergonhoso escândalo do Mensalão, mas isso se o julgamento fosse "político".
Eu, até já conhecendo a soberba do garboso HB desde os idos de Barra do Garças, ainda no inicío da década de 90, quando eu cobria eleições pela Rádio Araunã [ O Som Que Vai Mais Longe], tentei didaticamente explicar ao parlamentar [ que sempre se denominou jornalista ] que a matéria foi feita com base no que ele me disse e que a manchete da Folha a que ele se referia não foi definida por mim, um simples mortal repórter e sim pela editora geral do Jornal.
"BOSAIPO: HENRY SERÁ CASSADO" - estampava a primeira página da Folha do Estado.
Então, lá diante do nervoso presidente da Comissão de Mudança da Assembléia, completei:
"...E MANCHETE DE JORNAL IMPRESSO, DEPUTADO, QUASE NUNCA É O REPÓRTER QUE DEFINE, MAS SE HOUVE ALGUM ERRO DE INFORMAÇÃO NO CORPO DO TEXTO DA MATÉRIA, É SÓ O SENHOR ME DIZER QUE EU REPARAREI".
Bosaipo parecia estar convencido com meu argumento. Deu uma pequena pausa e logo em seguida emendou.: "MAS VÁ LÁ, DIZ O QUE VOCÊ QUER SABER?"
Eu, camuflando uma revolta imensa, perguntei: "SENHOR?"
HB, disse: "UÉ O QUE VC QUERIA SABER DE MIM? ESQUECEU O QUE QUERIA PERGUNTAR -?
Contei compassadamente até 13 e não consegui segurar: "NÃO, PODE DEIXAR NÃO PRECISA MAIS, DEPOIS DO QUE O SENHOR ACABOU DE FAZER AQUI NA FRENTE DE TODO MUNDO, EU NÃO TENHO MAIS PORQUE ENTREVISTÁ-LO"...
O arrogante e obsceno parlamentar [ já já você verá por que], que também sempre se entitulava pastor evangélico, espumava perdigotos venenosos pelos cantos da boca e levantando-se verozmente do sofá, onde era ladeado pelo finado ex-governador Dante de Oliveira, que ali acompanhava o ato dos vereadores cuiabanos, metralhou: " ENTÃO VAI TOMAR NO C..."
Atônito: não podia acreditar naquilo que um deputado xingava aos berros:" O QUÊ? COMO É QUE É?" -indaguei
Ee soltetrou [ quase desenhando pra mim] - " V A I T O M A R N O C ..."
Aí foi que o barraco desandou de vez: "VAI VOCÊ, IDIOTA SAFADO", revidei.
Cômico seria se não parecesse tão trágico rs. O parlamentar bateu um pouco mais: " VOCÊ NÃO É MESMO DE CONFIANÇA, É DE MANIPULAR NOTÍCIAS, GOSTA DE MENTIR, ENGANAR".
Minha mãe sempre disse a todo mundo que sou muito quiéto, tranquilo, mas acho que ela só dizia isso porque nunca ninguém havia colocado minha índole e meu caráter em dúvida. Até que num fatídico dia, o HB pisoteou meus valores morais.
" PELO MENOS EU N AO SOU LADRÃO, CORRUPTO E NÃO TENHO PROCESSOS ENGAVETADOS POR FALCATRUAS, LÁ NO TRIBUNAL DE JUSTIÇA", soquei essa na jugular dele.
Foi a gota d'água para que o pastor parlamentar subisse nas tamancas e viesse pra cima de mim, agora também com os punhos fechados. Pensei em frações de segundos: "APANHEI".
E o pior é que tinha muita gente ali presenciando a cena. "PROVE QUE EU TENHO PROCESSOS LÁ....QUERO QUE VOCÊ PROVE", gritava HB à beira de um infarto agudo do miocárdio, e mesmo assim partindo pra cima deste pobre reportero.
Eu fiquei estático. Pronto para apanhar. Mas ali havia gente da paz, do 'deixa disso'. O pessoal lá tentou apartar mas HB ainda conseguiu apontar aquele dedo sujo diante do meu nariz.
Luiz Alves, fotógrafo que estava comigo lá, à serviço da Folha, clicou o momento exato em que o indicador do Bosaipo balançava, tremia na minha frente.
Mas os "deixa-disso"venceram. O finado Dante e o médico e vereador Guilherme Maluf puxaram HB para um lado e outros expectadores me puxaram para o outro. Mas não arredei pé dalí. HB foi embora, cuidar da igreja e dos fiés dele.
Me doeu muito, mas mais até do que o soco que eu poderia ter levado, foi a indiferença e omissão dos meu coleguinhas da VALOROSA. Só ali, a um metro meio de eram pelo menos uns 12.
Aí, por fim pensei. "AGORA, VOU PRA REDAÇÃO DA FOLHA, MINHA EDITORA GERAL JÁ VAI ESTAR SABENDO QUE BRIGUEI COM O HB, QUE É AMIGO DO ETERNO RIVA E EU TÔ DEMITIDO".
Acertei em parte...minha editora, Marisa já sabia... o Adriângelo [ antebraço direito do HB à época] já havia buzinado pra ela pelo telefone.
Mas ela não me disse nada. Fui à mesa dela e comecei a passar minha versão, ela fez cara de espanto e talz, mas não disse nada. Fiquei no lucro.
Fui então escrever as matérias que eu havia apurado naquele dia e certamente a briga com o Bosaipo, por motivos óbvios, não poderia estar entre os meus textos.
Aí voltei a pensar: "ACHO QUE AO MENOS UMA NOTINHA AQUI NO CIRCUITO FECHADO A FOLHA VAI DAR NÉ? AFINAL EU QUASE APANHEI DO HB".
Até chorei na manhã seguinte quando olhei a coluna lá e nada, nada, nada sobre meu duelo verborrágico naquela fátidica tarde com HB e sua ira.
Mas aí, novo dia, fui a campo e voltei à sede antiga da Assembléia para apurar mais sobre a confusão dos vereadores.
E sabe qul a primeira pessoa que vejo em minha frente? - Sim ele mesmo, o inoxidável presidente de sempre da Assembléia.
"OH PAULO, EM NOME DA ASSEMBLÉIA EU QUERO ME DESCULPAR COM VOCÊ PELO QUE HOUVE ONTEM. EU DISSE PRO BOSAIPO QUE ELE FEZ ERRADO E QUE NÃO SE DESTRATA NENHUMA PESSOA, MUITO MENOS UM JORNALISTA , ENTÃO ME DESCULPA MESMO, DE CORAÇÃO", disse José Riva , depois de franzir por 9 vezes a testa saliente que sempre exibe duas veias grossas quando o "homi" fica muito enfezado.
Até que aquilo me sensibilizou. Pôxa, o presidente da Assembléia Legislativa de Mato Grosso, um cara que, se brincar manda mais que o Blairo governador [ e mais ainda que a Terezinha Maggi], vir em público e me pedir desculpas. Isso não é pra qualquer um.
Mas o próprio HB mesmo, só depois de 128 dias e algumas horas é que ligou o desconfiômetro.
Eu cobria uma reunião com alguns produtores rurais na Famato, já pelo SBT e Humberto Bosaipo estava lá representando a Assembléia.
Ele me assoviou, me chamou de "EI" e me fez um sinal dizendo "VEM CÁ".
Ele sentado e eu em pé no lado oposto da mesa onde HB estava. Eu disse por meio também de sinal que não iria, pois estava ocupado. Então HB se levantou e quis conversar comigo, mas lá fora daquela sala.
Eu me neguei, alegando estar alí prestando atenção na reunião entre os derrubadores de árvores. Então o pastor Bosaipo, em nove segundos cochichou pra mim: "CÊ ME DESCULPE POR AQUELE DIA LÁ. EU ESTAVA COM A CABEÇA QUENTE E REALMENTE ME EXCEDI. GOSTARIA MUITO QUE CE ME DESCULPASSE".
Minimizei a discussão com um : "DEIXA PRA LÁ, DEPUTADO. ISSO JÁ ERA".
E pouco depois HB, por méritos próprios e por bom comportamento, foi promovido a conselheiro vitalício do Tribunal de Contas e eu continuei na Folha por mais quase dois anos.

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